Era o dia do meu casamento. Véu, grinalda, daminhas, alianças, igreja. Tudo aquilo que eu sonhava desde pequena: eu ia me sentir princesa por algumas horas. O casamento seria pela manhã, tudo estava perfeito, eu tinha um vestido novo, um véu usado, uma liga azul e emprestada. Tudo para dar sorte; mas a sorte não veio. Bom, os convidados estavam dentro da igreja, ansiosos, não mais que eu, para a cerimônia. Minhas madrinhas cochichavam e andavam de um lado para o outro, umas usavam o celular, outras saiam da igreja com a preocupação estampada na face. Depois de muito esperar, vários convidados saiam da igreja e olhavam da minha direção com pena de mim. Eu virei para minha melhor amiga, e antes que pudesse falar qualquer coisa ela disse:
-Ele não veio, sinto muito.
E foi uma veza história daquele sábado de manhã daquele verão. Toda vez que chegava essa data, a tristeza me corroia por dentro, me deixava triste, me deixava fraca. Até que uma pes-soa chegou pra quebrar o que eu chamo de maldição da tal data. Vou contar o que aconteceu, em outro sábado de manhã de outro verão.
Era aquele sábado em que os sentimentos voltavam e eu estava em pé na praia, olhando o horizonte. Em pé. Apenas olhando. Eu não encarava as pessoas, nem se quer me importava com elas, mas eu sentia seus olhares curiosos em minha direção. A única olhar que eu senti outra coisa sem ser curiosidade, foi o olhar dele. Ele não me encarava. Ele estava em pé, ao meu lado, olhando exatamente pra onde eu olhava. Eu me virei pra ele e perguntei:
-O que você vê?
-No mar eu vejo nada. Nos seus olhos eu vejo muita coisa.
-O que, por exemplo?
-Talvez tudo. Ódio, rancor, mágoa, tristeza, dor de um abandono, vontade amar. –uma pausa –E agora eu vejo seus olhos marejados, por favor, não chore. Seus olhos ficaram lindos quando você chorou, eu não nego, mas você terá de secar as lágrimas e esconder a beleza deles, portanto não chore. Deixe-os como estavam.
E assim ele se apresentou como um desconhecido. Trocamos telefones, e-mails, endereços, e assim ele se apresentou como meu colega. Encontrávamos-nos com muita freqüência e assim ele se apresentou como meu melhor amigo. Ele me chamou para um encontro, e ele se apresentou como meu namorado. E naquela manhã de sábado de outro verão, ele se ajoelhou se apresentando como meu noivo. E em uma noite de sexta-feira do inverno daquele ano, ele se apresentou duas vezes: como meu marido e como o amor da minha vida.
Texto: Claudia Modena


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